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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A BONDADE E A SEVERIDADE DE DEUS




Um dos paradoxos com os quais nos deparamos na vida cristã é exatamente o vértice em que se cruzam duas características do caráter de Deus, aparentemente irreconciliáveis aos olhos humanos: a sua bondade e a sua severidade.


Desde os tempos de João, o batista, nos primórdios do Novo Pacto, quando Deus tomou a forma humana, e fez-se homem por amor aos homens, tem sido difícil conciliar o amor incondicional de Deus e sua capacidade de indignar-se contra as injúrias permanentes com as quais o homem natural tem agredido o céu. Ali, no deserto da Judéia, João Batista pregava o arrependimento e o batismo, e as multidões vinham a ele, muitas vezes, sem a genuína conversão, mas absolutamente convencidas de que essa era a única possibilidade de escapar da ira vindoura.


De lá para cá, os séculos tombaram nas esquinas do tempo, muita luz foi derramada sobre a natureza do amor divino, mas nós na qualidade de cristãos, somos acometidos igualmente por essa mesma linha fácil de pensamento, entendendo que, ao fazermos uma opção preferencial por Deus, colocamo-nos debaixo da sua proteção e somos, por inferência, resguardados do poder da sua ira. Não importam as escolhas pessoais que venhamos a fazer e nem mesmo as armadilhas que a vida possa nos oferecer. Teologias de vanguarda não faltam para nos equivocar prometendo prosperidade, alegria e felicidade, isentando-nos de todo sofrimento, fazendo-nos esquecidos de que " o juízo de Deus começa pela casa de Deus" e que, cada um de nós, responderá por seus atos diante do Criador, ou nesta vida ou na vindoura.


Vez ou outra deparamo-nos com esse juízo e experimentamos a severidade do seu amor colocando no prumo nossas opções e decisões pessoais e, quando isso acontece, somos consolados pela lembrança de que "assim como o pai corrige o filho a quem ama, nosso pai também nos corrige" e mesmo que doloridos, machucados, humilhados, recebemos a reprimenda não como um castigo, mas como uma correção necessária, pela qual temos oportunidade de avaliar nosso nível de submissão em relação aos atos soberanos de Deus.


Essa consciência de submissão filial é parte do aprendizado pelo qual todo cristão maduro deve passar sem murmurar ou questionar.


À luz dos "holofotes do céu" devemos contemplar o Deus de Israel interferindo nas nações e escolhendo vidas especialmente separadas para revelar o seu poder. E o que nos torna atônitos, não são os feitos de Deus, mas os motivos pelos quais Ele estaria enveredando por escolhas tão desatinadas, vergando espécies de dura cerviz, tocando territórios tão íntimos, devassando tesouros sagrados, pisando terra tão apaixonada. Aqui e ali, Deus escolhe e separa pessoas que jamais escolheríamos, se a nós fosse dado tal poder. Quem já não se deparou com ex-bandidos, ex-assassinos, ex-adúlteros e ex-adúlteras, no uso de prerrogativas divinas, no exercício de dons que lhes foram concedidos no momento da sua conversão? Quem já não viu de perto a materialização do versículo "aonde abundou o pecado, superabundou a graça?" Todos nós! Nós vemos, vimos e continuaremos a ver que as escolhas de Deus se baseiam em algo mais profundo do que os critérios éticos que abalizam as nossas escolhas pessoais.


Os atos de Deus existem de maneira intrínseca e ainda que nós desconheçamos os seus motivos, certamente, eles não necessitam dos nossa compreensão para existir.


Podemos estar diante da fronte submissa de um Paulo ou da dura cerviz de Faraó, isso não importa tanto. Importa é que a mensagem da cruz seja extraída dos despojos da alma e que Deus seja glorificado nesse despojar voluntário ou involuntário. A nós, seres perplexos, pequenos e humilhados por sua presença poderosa, resta interceder por salvação, clamar por iluminação e implorar que Deus tenha piedade de nós. Que ele use de misericórdia para com todos os homens, sejam eles pobres ou ricos, grandes ou pequenos, humildes ou poderosos, éticos ou não éticos, santos ou pecadores, conscientes ou inconscientes da servidão da terra em relação ao governo do céu. Porque ainda que a cruz não seja a mesma para cada um de nós, a mensagem da cruz será sempre possessão universal e eterna.


Em reconhecer esses atos, em contemplar esse reino, em propagar suas virtudes, em espalhar sua soberania, em anunciar seu poder, em difundir sua mensagem, em divulgar sua justiça, em reverenciar sua fidelidade, em aceitar sua severidade, eu quero percorrer, todos os dias, as avenidas martirizadas desse cristianismo milenar.


Texto: Ana Maria Ribas

Publicado no Recanto das Letras em 02/10/2007
Código do texto: T677761

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