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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

SEPTUAGINTA:


SEPTUAGINTA:

Como era essa tradução da Bíblia e qual a importância dela?


Postado por Presbítero André Sanchez


Antes de você começar, responda a uma pergunta rápida: Você gostaria de experimentar estudar a Bíblia capítulo por capítulo com o presbítero André Sanchez (de Gênesis a Apocalipse), aí no conforto do seu lar, em vídeo-aulas profundas e com linguagem simples, de seu computador, tablete ou celular? Acesse aqui rapidinho e saiba como

Você pergunta: Eu li em um estudo seu você mencionar uma tradução da Bíblia chamada Septuaginta. Eu nunca tinha ouvido falar nessa tradução. Você poderia me dar mais detalhes para que o aprendizado seja mais completo?



Septuaginta: Como era essa tradução da Bíblia e qual a importância dela?




Caro leitor, realmente eu ainda não tinha um estudo sobre a Septuaginta, mas esse problema acabou, vou explicar abaixo de uma forma simples que tradução é essa e a importância dela para as traduções da Bíblia que temos hoje em nossas mãos!

O que é a Septuaginta? Por ela tem esse nome?

(1) Em linhas gerais a Septuaginta é a mais antiga tradução do Antigo Testamento para a língua grega (que era a língua mais falada na época desta tradução e também na época de Jesus). Não se sabe exatamente e comprovadamente a história dessa tradução, porém, a tradição aponta que ela tenha sido traduzida por setenta sábios (algumas versões dizem setenta e dois) estudiosos, especialistas em hebraico, na cidade de Alexandria, no Egito. Por isso ela ganhou o nome de Septuaginta (que vem de setenta, LXX, em algarismos romanos).

Objetivos da tradução da Septuaginta

(2) Essa tradução, segundo historiadores, foi feita com o principal objetivo de trazer essas informações à grande população de judeus que vivia no Egito naquela época e que não falava o hebraico (língua em que a maioria do Velho Testamento foi escrito originalmente). Mas essa tradução acabou sendo uma porta de entrada da palavra de Deus para o mundo de fala grega, que passou a conhecer muito mais da palavra do Senhor após essa tradução. Ela foi produzida por volta dos anos 285 a.C e 150 a.C.

Septuaginta na época de Jesus e dos apóstolos

(3) Uma coisa interessante a ser falada sobre a Septuaginta é que ela foi amplamente usada na época de Jesus e também pela igreja cristã primitiva. Isso porque o grego era a língua mais falada e o hebraico bem menos. Outro fato importante é que os crentes gentios (não judeus) que começaram a ser alcançados pelo Evangelho não falavam hebraico, mas o grego era muito acessível. Isso fez com que a Septuaginta fosse muito usada. Tanto que várias citações no novo testamento, quando os autores citam o velho testamento, usam a tradução da Septuaginta como base devido a sua popularidade.

Septuaginta e apócrifos

(4) Na Septuaginta, no entanto, foram inclusos alguns livros que chamamos de apócrifos, mas que foram rejeitados pelos judeus como não sendo inspirados por Deus por não fazer parte da Bíblia Hebraica usada pela maioria do povo judeu. Nós evangélicos rejeitamos esses livros, por isso, eles não fazem parte da Bíblia Evangélica.

 (5) Sendo assim, a Septuaginta, apesar de não ser uma tradução perfeita, por conter alguns problemas de tradução, teve muita importância na disseminação da Palavra do Senhor principalmente entre os gentios que começaram a crer em Jesus e não conheciam o velho testamento hebraico. Ela foi uma ponte de conhecimento muito usada por Deus na história. Evidentemente, outras traduções e manuscritos produzidos em épocas anteriores e posteriores ajudaram os tradutores a chegar em traduções o mais próximo possível dos originais, dando-nos manuscritos muito confiáveis, mais confiáveis até que muitos outros escritos históricos aceitos pela ciência.

Não sei se você é uma dessas pessoas que tem dificuldades de entender a Bíblia. Eu já fui e sofri muito! Mas não me dei por vencido, não me deixei ser derrotado pelos inimigos. E você, como anda sua leitura da Bíblia? Seu entendimento? Que tal melhorar nessa área da sua vida espiritual, aprendendo a entender assuntos da Bíblia de forma simples e rápida, ajudado por quem já superou as mesmas dificuldades que você enfrenta?


Fonte: https://www.esbocandoideias.com/2017/09/septuaginta-traducao-da-biblia.html

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

DEZ RAZÕES PARA FREQÜENTAR A ESCOLA DOMINICAL





1. Porque você tem necessidade do genuíno e sadio alimento espiritual que só pode ser obtido pelo estudo claro, metódico, continuado e progressivo da palavra de Deus, ensinando na Escola Dominical;

2. Porque você cresce e desenvolve-se através do estudo da palavra de Deus;

3. Porque você cumpre os objetivos da Igreja do Senhor, pois os objetivos da Escola Dominical são os mesmos da Igreja;

4. Porque você adquire qualidade bíblica e espiritual permanente, pois é a Escola Dominical que determina a qualidade e o nível espiritual da igreja local, e não os outros departamentos como a união de mocidade e de mulheres, por mais excelentes que eles sejam;

5. Porque você (seja adulto, jovem, adolescente ou criança) adquire uma fé mais robusta e madura e, assim, estará pronto e mais apto para desempenhar as atividades da Obra de Deus;

6. Porque você desenvolve a sua espiritualidade e o seu caráter cristão;

7. Porque você aprende e realiza a evangelização na Escola Dominical e através dela; além disso, aprende a amar e a cooperar com a obra missionária;

8. Porque você tem oportunidades ilimitadas para servir ao Senhor, pois a Escola Dominical é o lugar da descoberta, movimentação e treinamento de novos talentos;

9. Porque você se reúne com a sua família, fortalecendo o relacionamento entre pais e filhos, as crianças crescem na disciplina do Senhor; e os casais aperfeiçoam a vida conjugal;

10. Porque a sua vida espiritual é avivada, pois a Escola Dominical é uma fonte de avivamento, porque onde a Palavra de Deus é ensinada e praticada e o avivamento acontece.


COMO TRABALHAR COM ESBOÇOS
- O esboço tem uma estrutura de três tópicos e nove sub tópicos.
- Os três tópicos são extraídos do texto áureo da lição que é o versículo chave.

- Os sub tópicos são extraídos dos textos da leitura bíblica em classe através de uma exegese do texto, com começo meio e conclusão.

- Cada sub tópico tem uma ou duas referências bíblicas que deve ser consultada através de um bom comentário bíblico e assim haverá um entendimento mais profundo de cada referência e com isso o ministrador pode dar uma aula com segurança, confiança e sabedoria.

- Obs.: quem gosta de tudo pronto nunca vai aprender a preparar.


O VÍRUS DO EMPREENDEDORISMO

O VÍRUS DO EMPREENDEDORISMO SEM SENTIDO ESTÁ ACABANDO COM VOCÊ

Os mesmos produtos, os mesmos termos, o mesmo sotaque, os mesmos sites e blogs com os mesmíssimos templates. Afinal de contas: o que é que você está fazendo com a sua carreira e com a sua vida?

Me chame de Dr. Otto. Estamos no dia 23 de maio de 2022. Já faz alguns anos que perdemos Nova Iorque, São Paulo, São Francisco e outras capitais para os contaminados. O que havia começado como uma gripe, sem levantar qualquer tipo de suspeita, cresceu e tomou de assalto todo o planeta. No início, os jovens eram os mais suscetíveis, mas depois de um tempo todo tipo de gente começou a cair para o que ficou conhecido como “A grande oportunidade”. O vírus não só era altamente resistente a todo tipo de soro, como não havia vacina. Com a deterioração da economia, a sua disseminação se tornou ainda mais rápida.

O vírus? A moda do empreendedorismo sem sentido.


Ainda não sabemos qual foi o paciente zero, mas os cientistas já rastrearam a linha de contaminação e chegaram a uma data: 2008, quando a conexão a cabo se tornou mais acessível e os computadores ficaram mais baratos. Ao que tudo indica, a transmissão ocorre através da internet, se aproveitando de zonas de alta circulação, como o Facebook e outras redes sociais, para infectar um número cada vez maior de pessoas.
Até então, o vírus não só era assintomático, como era possível verificar o contrário: uma vez contaminado, o agente passava a se comportar de maneira positiva e estimulada; a energia crescia e os pensamentos positivos surgiam em sua cabeça. De uma hora ou para a outra ele passava a acreditar que poderia mudar o mundo.



“Vamos, vamos! Precisamos acordar às 5:00, evitar o glúten e fazer yoga! ”


No dia 9 de março de 2009, tudo mudaria. Havia surgido o Whatsapp.
O aplicativo agia como um grande vetor de disseminação, atraindo as pessoas já contaminadas para dúzias de grupos que tinham como único objetivo a pulverização do vírus. Até 2012 a ferramenta ainda era utilizada para trocar mensagens e áudios entre amigos, mas as coisas foram piorando e se deteriorando com uma velocidade inacreditável. Em pouco tempo, perderíamos as rédeas da situação para sempre.
Quando tudo começou a sair do controle.


“Você teria cinco minutos para falar comigo sobre uma grande oportuni…”
O que sabemos até então é que a falta de estímulo é o principal agente de combate à doença. Uma vez desestimulado o indivíduo, o vírus resiste, fazendo com que ele retorne ao estado reconhecido como “mindset vencedor”.
Até há pouco tempo, esse sintoma era um desconhecido da classe médica, mas foi com o agravamento da crise política do país, antes do impeachment do Presidente da República, que ele começou a se mostrar em sua versão mais agressiva. Provavelmente o vírus havia sofrido uma mutação violenta.
Agora, quem havia sido contaminado apresentava, pela primeira vez, o descolamento da realidade. Esse quadro foi percebido pela primeira vez quando um paciente relatou que receberia um bilhão de obrigados pelo seu trabalho; até colocou data! Outro, disse que levaria à 30% da população do planeta terra inteiro a sua mentalidade. Em pouco tempo, percebíamos que os sonhos se tornavam cada vez maiores e o desejo de transformação mais e mais violento.
O que mais nos assustava, como médicos, é que nem mesmo os maiores ditadores do planeta haviam acreditado que poderiam fazer esse tipo de coisa. Nunca, Mao Tse Tung ou Hitler, haviam exigido palmas de um bilhão de pessoas ou planejavam ser conhecidos por 2 bilhões de sujeitos, quem dirá incutir neles a sua mentalidade.
O início do fim.

Acostumados com o altíssimo nível de endorfina no sangue, quem era contaminado precisava experimentar a sensação de sucesso. Descobriríamos meses depois que a cada negócio fechado você precisava de níveis cada vez mais altos de satisfação para que o sistema todo não desmoronasse.
Passaram, então, a fecharem negócios uns com os outros, vendendo produtos sem sentido, que prometiam mudar o mundo — quanto maior a promessa maior o êxtase —, mas que eram meros sacos de ar. O dinheiro que ganhavam de uns gastavam nos outros. Estava claro que nada daquilo se sustentaria por muito tempo.
Já em 2016 observávamos os contaminados no que chamaríamos de “grande ausência de identidade”. Faziam Yoga para fecharem negócios, abriam mão do glúten para ficarem alertas, acordavam e dormiam pensando em alta-performance, para que pudessem gerar mais clientes, que lhes dariam mais dinheiro, que era o combustível para toda essa ciranda.

O discurso era altamente sedutor: “Trabalhe em casa, conheça o mundo, demita o seu chefe, viva o seu sonho, seja quem você quiser ser! ”.
Na fase final de descolamento da realidade a coisa toda se tornava tão histérica que chegavam ao ponto de imitarem uns o sotaque dos outros. Falavam os mesmos jargões, vestiam as mesmas roupas, nominavam seus produtos com as mesmas expressões…
O dinheiro era o rei. O dinheiro era Deus.
Criaram uma espécie de religião: a teologia da prosperidade. Se encontravam em galpões e dançavam juntos, gritavam, golpeavam o vento e diziam uns aos outros que manter todo aquele nível histérico não só era possível, como era preciso! Se tornaram coaches comportamentais, de sono, de hábitos, alimentares, de relacionamento…invadiram todos os campos, salgando toda a terra e se apropriando de todas as áreas do conhecimento humano.
Por fim, o fim.

Após quase duas décadas, o vírus começa a apresentar os primeiros sinais de esgotamento. A vida é preciosa e o corpo humano é um milagre. Aos poucos, observávamos os primeiros agentes que conseguiam, sozinhos, combaterem o vírus. O cérebro, depois de um tempo, entravas em curto, percebendo que não havia um final para esse túnel. Após tanto dinheiro perdido em busca do dinheiro fácil, percebemos um retorno a realidade, que vem aumentando.
Já tivemos pacientes que retornaram às suas áreas de vocação, que descobriram o que gostam de fazer e que decidiram abandonar os templates, jargões e pirâmides. Gente que apagou do computador as máquinas de escrever e-mails, resquícios de quão fundo nós chegamos nesse poço. Hoje, 23 de maio, já registramos mais de quinze mil fotos de terno e braços cruzados removidas do Facebook e todos os dias dúzias de grupos de times de vendas somem do Whatsapp.
Não encontramos um vídeo de vendas de 45 minutos há quase dois meses e as pessoas já não deixam mais dinheiro no para-brisa do carro dos outros há um ano. Enfim, a realidade dá sinais de que vencerá tudo isso...
Explicando tudo isso.

“Acenda um cigarro, tome uma garrafa de vinho e pare com essa porra de Yoga-funcional”.
Dr. Otto é um personagem fictício, mas que representa com fidelidade o que venho observando no campo do empreendedorismo nos últimos anos. Me dói admitir, mas nós perdemos a mão em algum momento da história. O que deveria ser uma atividade que viabilizaria a nossa liberdade e nos daria mais tempo para fazermos o que gostamos e estarmos mais perto de quem amamos se tornou — tão e somente — uma corrida dos ratos.
Cada vez que eu vejo um empreendedor escolhendo o que fará pelo que “está dando mais dinheiro” e não seguindo sua vocação, é uma facada no peito.
Preenchemos a nossa agenda, regulamos o nosso sono, restringimos a nossa alimentação e até mesmo decidimos o que faremos pelos próximos anos da nossa vida atrás da ideia de que poderemos viver — mais para a frente — da maneira com que nós sempre sonhamos.

Ei, você, uma dica: nós podemos fazer isso agora.

Ao invés de mais uma reunião com aquele grupo de empreendedorismo, opte por um bom livro. Vá ao cinema, despretensiosamente. Assista àquele filme que não te ensinará nada porque, naquele dia, você não quer aprender coisa alguma. Beba, ria e durma indecorosamente. Desligue os alarmes e retorne só na semana que vem.

Há 30 anos, o mundo era quadrado e precisava dos empreendedores para mudá-lo para sempre. Hoje, os empreendedores se tornaram quadrados. Dizer que pensa fora da caixa ou que está fora da curva se tornou a caixa e a própria curva!
Qual foi a última vez que você foi você mesmo? Que foi criativo? Que fez o vídeo de vendas da forma que você queria, não como mandavam os manuais ou que atendeu o seu cliente falando da sua maneira e não como as normas mandavam? Quando você foi que você chamou o seu produto pelo nome que achava mais legal, sem se preocupar com mais ninguém?
O tempo é curto e está voando. Você quis empreender para ser dono da própria vida e não está percebendo que hoje todos possuem uma parte de você. As amarras do empreendedorismo sem sentido são tão ou mais grossas do que a da CLT.

Fonte:https://medium.com/o-novo-mercado/o-v%C3%ADrus-do-empreendedorismo-sem-sentido-est%C3%A1-acabando-com-voc%C3%AA-fd62c32690d


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A BÍBLIA ENSINA QUE A TERRA É PLANA?



A BÍBLIA ENSINA QUE A TERRA É PLANA?





Dr. Danny R. Faulkner


Introdução: - Como já discutido anteriormente, a crença de que a Terra é plana cresceu rapidamente nos últimos tempos, em grande parte através da disseminação via inúmeros sites da Internet e da influência da mídia social. Infelizmente, muitos cristãos foram vítimas disso, levados a acreditar que a Bíblia ensina que a Terra é plana e que, até cinco séculos atrás, a igreja igualmente ensinou que a Terra é plana. Neste artigo, examinarei muitas das passagens bíblicas que supostamente ensinam que a Terra é plana, e vou mostrar que na verdade elas não fazem isso. Mas antes de fazer isso, devo responder a duas falsas premissas mencionadas acima: que a igreja historicamente ensinava que a Terra é plana e que isso mudou há 500 anos.

Conforme o estudioso medieval Geoffrey Burton Russell demonstrou habilmente, ao contrário do conceito geral errôneo, a igreja medieval não ensinava que a Terra era plana. Tomás de Aquino introduziu o pensamento aristotélico no ensino da igreja medieval. Escrevendo no século IV a.C., Aristóteles claramente ensinou que a Terra era esférica. No início do século II a.C., Erastóstenes mediu com precisão a circunferência da Terra esférica. O Almagesto de Cláudio Ptolomeu desde o início do século II d.C. forneceu um modelo útil para calcular as posições dos corpos celestes. Embora esse modelo fosse geocêntrico, ele não promoveu uma Terra plana, mas em vez disso foi baseado em uma Terra esférica. As obras de Aristóteles, Erastóstenes e Ptolomeu foram todas amplamente disponíveis e discutidas no final do período medieval, e continuaram a ser através da transição para a Renascença. Dado o registro claro da História, por que é tão comum acreditar hoje que a maioria das pessoas, e especialmente a igreja, pensavam que a Terra era plana?

Esse conceito errôneo é facilmente atribuído aos escritos de dois céticos do final do século XIX, John William Draper e Andrew Dickson White, que inventaram a tese do conflito. A tese do conflito afirma que a religião em geral, e o cristianismo em particular, impediram o progresso. A argumentação da tese do conflito era que a Europa medieval estava dominada pela superstição (cristianismo) que impediu o avanço intelectual, e foi somente depois que a razão do homem se reafirmou durante a Renascença que o homem lentamente se tornou livre do dogma religioso, resultando no Iluminismo. É verdade que quatro séculos atrás a Igreja Católica Romana se opôs ao ensinamento de Galileu sobre a teoria heliocêntrica. De acordo com a tese do conflito, foi o suposto ensino geocêntrico da Bíblia que fez com que a Igreja Católica Romana se opusesse a Galileu. Entretanto, o registro histórico demonstra que foram os ensinamentos de Aristóteles e Ptolomeu que desempenharam o papel principal nesse conflito. Isso é, o caso Galileu foi uma batalha entre duas teorias científicas — geocentrismo e heliocentrismo — com a Bíblia desempenhando um papel muito menor. Daí a tese do conflito reinterpretou o caso Galileu em algo que não foi.

Os promotores da tese do conflito também recontaram a história de Cristóvão Colombo. A maioria das pessoas hoje persiste na crença de que na época de Colombo quase todos pensavam que a Terra era plana. De acordo com a história, Colombo era uma das poucas pessoas que pensavam que a Terra era esférica, e ele entendeu que em uma Terra esférica poderia navegar para o oeste da Europa para chegar à Índia e à China. Supostamente, Colombo teve de argumentar contrafortes objeções provenientes daqueles que pensavam que a Terra era plana para obter apoio para sua expedição. Finalmente, de acordo com a história, Colombo conseguiu completar uma viagem para o Novo Mundo, e quando ele voltou para a Europa, as pessoas perceberam que Colombo estava certo — o mundo era esférico e não plano. Sério? Como a navegação da Europa para o Caribe e de volta para a Europa provou que o mundo era esférico? Não provou. A verdade é que ninguém disse a Colombo que ele não poderia chegar ao Extremo Oriente navegando para o oeste. Todos sabiam que isso era possível, porque todos sabiam que a Terra era esférica. O problema era que a Terra era muito grande. A maioria das pessoas entendeu que a distância a oeste da Europa para o Extremo Oriente era muito maior do que indo para o leste (um olhar para qualquer globo prova isso). A questão não era como era possível chegar à Ásia indo para o oeste, mas sim o quanto era viável. A crença era de que o oceano entre a Europa e a Ásia era vasto, com pouca ou nenhuma terra no meio. Na época de Colombo, as viagens em águas abertas eram muito arriscadas, e os navios raramente navegavam mais de três dias fora da vista da terra. Uma viagem a oeste através do oceano para a Ásia teria exigido meses, sem nenhuma oportunidade para reabastecimento ou resgate ao longo do caminho se problemas se desenvolvessem.

Os fatos da História refutam a história comumente defendida sobre Cristóvão Colombo. Grande parte do trabalho de apoio a uma Terra plana hoje, indiscriminadamente, repete e baseia-se nessa falsa visão. O movimento da Terra plana começou em meados do século XIX, ao mesmo tempo em que a tese do conflito estava sendo desenvolvida. Enquanto os céticos estavam ridicularizando a Bíblia por supostamente ensinar que a Terra é plana, os primeiros terraplanistas aceitaram loucamente essa falsa afirmação. Incontestavelmente, o recente aumento de interesse na Terra plana entre os cristãos tem sido alimentado pela (falsa) crença de que a Bíblia ensina que a Terra é plana. Aqueles que se alistaram no movimento da Terra plana nos últimos tempos, aparentemente, ignoram o fato de que aqueles que promoveram a tese do conflito fizeram os mesmos argumentos para desacreditar a Bíblia. Isso pode ser irônico, ou talvez não seja. É possível que certas pessoas que promovem a Terra plana hoje estejam fazendo o mesmo para desacreditar a Bíblia e o cristianismo mais uma vez. Neste caso, então os cristãos que têm sido enganados ao acreditar que a Terra é plana caíram de modo tolo na armadilha. Examinemos as Escrituras para ver o que elas dizem. Veremos que os promotores da Terra plana não as manejam melhor do que manejam a História.


A Bíblia Ensina que a Terra tem uma Borda?

Quase todos entendem que uma esfera não tem uma borda. De fato, podemos viajar indefinidamente em torno de uma esfera e nunca chegar a um limite ou borda. Por outro lado, se a Terra é plana, ela deve ter uma borda em algum lugar, a menos que a Terra seja um plano infinito. No entanto, poucas pessoas atualmente sugerem o último, e ninguém no mundo antigo o fez. Os céticos da Bíblia gostam de apontar que a frase "quatro cantos da Terra" aparece três vezes na Bíblia. Seguramente, os céticos afirmam que isto deve se referir a uma Terra plana e quadrada — provando deste modo que a Bíblia ensina uma Terra plana. No mínimo, eles argumentam que isso mostra que os escritores da Bíblia acreditavam em uma das cosmologias da Terra plana do mundo antigo, provando assim que a Bíblia não é inspirada, mas que as pessoas que escreveram a Bíblia apenas refletiam a cosmovisão de seus tempos. Existem alguns exemplos de cosmologias da Terra plana do mundo antigo, mas elas sempre consistiram de uma Terra plana e redonda. Um círculo era considerado uma forma muito mais perfeita do que um quadrado, portanto nenhuma das antigas cosmologias da Terra plana envolvem uma Terra quadrada. Se uma Terra plana e quadrada fosse a cosmologia da Bíblia, então ela teria estado em desacordo com cada cosmologia antiga da Terra plana. Portanto, essa tentativa dos céticos de afirmar que a Bíblia ensina uma Terra plana não se enquadra (trocadilho intencional) nos fatos da História.

Se os versículos que mencionam os quatro cantos da Terra não se referem a uma Terra plana, então a que eles se referem? Deixe-me começar com Apocalipse 7:1, que fala de quatro anjos que estão sobre os quatro cantos da Terra e que restringem os quatro ventos da Terra. Mesmo os estudantes mais ardentes da interpretação hiperliteral da Bíblia reconhecem os frequentes elementos poéticos e o uso de imagens no livro de Apocalipse. Isso se estende às muitas ocasiões em que números aparecem no livro de Apocalipse. Neste versículo, o número quatro aparece três vezes. Em cada uso, as coisas mencionadas estão intimamente ligadas, portanto há uma relação biunívoca entre cada um dos três grupos de quatro.

Os quatro ventos referem-se às quatro direções das quais os ventos podem vir: norte, sul, leste e oeste. Muitas vezes usamos essa nomenclatura hoje, tal como dizer que o vento é “do Oeste. ”  A repetição do número quatro (“quatro anjos… quatro cantos… quatro ventos”) liga cada anjo e cada canto com uma das quatro direções da bússola. Portanto, não há fundamento para interpretar esses quatro cantos literalmente, especialmente quando isso não corresponde com nenhuma cosmologia.

A frase “quatro cantos da terra” provavelmente era uma expressão idiomática no tempo do apóstolo João, tanto como é hoje em português, referindo-se a cada posição distante na Terra. Esse é o significado do contexto de Apocalipse 20:7-8, a outra ocorrência da frase “quatro cantos da terra” no livro de Apocalipse (a versão King James tem a palavra quadrante aqui em vez de canto, embora a palavra grega seja a mesma em ambos, Apocalipse 7:1 e 20:7-8). As expressões idiomáticas em uma língua podem ser difíceis de traduzir para outro idioma, porque uma tradução literal pode não ter sentido na língua alvo (imagine como uma tradução literal da nossa expressão idiomática “fiquei a ver navios” seria entendida em outros idiomas). É provável que a compreensão idiomática da língua portuguesa de “os quatro cantos da terra, ” referente às partes mais remotas da Terra, provenha de Apocalipse 20:7-8. A partir de uma avaliação de seu contexto, podemos concluir que esse é também o significado de “os quatro cantos da terra” em Isaías 11:12, a terceira aparição desta frase na Bíblia. Seu uso geralmente é entendido como idiomático.

Os céticos da Bíblia frequentemente usam esses três versículos para argumentar que a Escritura ensina que a Terra é plana. Enquanto alguns promotores da Terra plana usam esses três versículos, muitos não. Por quê? Eles provavelmente percebem que uma Terra quadrada com cantos não concorda com seu modelo de uma redonda Terra plana. Essa é uma omissão notável. Como os cristãos que acreditam em uma Terra plana, porque creem seriamente que é o que a Bíblia ensina, lidariam com esses três versículos? Eles provavelmente iriam interpretá-los tanto como eu os interpreto. Contudo, uma vez que se admita que algumas passagens bíblicas que supostamente ensinam uma Terra plana são idiomáticas, é difícil afirmar que passagens semelhantes também não são idiomáticas. Por exemplo, a frase “extremidades da terra” aparece 28 vezes na versão King James, e, se tomada literalmente, sugere que a Terra tem uma borda, o que descartaria uma Terra esférica.

Entretanto, a avaliação crítica de cada uma dessas 28 ocasiões da frase “extremidades da terra” em seus respectivos contextos mostra claramente que esta frase também é uma expressão idiomática. Por exemplo, em 12 das 28 ocorrências, a palavra hebraica efes (“extremidade, fim”) usada em construção com erets (“terra”), prova que os autores bíblicos tencionaram esta frase como uma referência aos alcances extremos do mundo habitável. O fato de que esta frase algumas vezes é usada não para falar das partes distantes da Terra em si, mas sim das pessoas que habitam esses lugares remotos (por exemplo, Salmos 67:7; 98:3; Isaías 45:22) argumenta fortemente contra esta frase sendo usada para indicar que a Terra tem uma borda física.

As Altitudes na Bíblia Ensinam que a Terra é Plana?

Talvez o argumento mais bizarro de que a Bíblia ensina uma Terra plana se baseia em Daniel 4:11, que diz:

“Crescia a árvore, e se fazia forte, de maneira que a sua altura chegava até o céu, e era vista até os confins da terra. ”

Esta descrição é repetida quase palavra por palavra em Daniel 4:20. Ambos, céticos e terraplanistas, argumentam que, numa Terra esférica, não seria possível que uma árvore fosse visível da Terra inteira, mas tal árvore poderia ser visível em qualquer lugar em uma Terra plana. Mas qual é o contexto destes versículos? O quarto capítulo de Daniel é o relato do segundo sonho de Nabucodonosor. O versículo 5 cita diretamente as palavras de Nabucodonosor afirmando que ele teve um sonho. Os versículos 10 a 17 citam Nabucodonosor descrevendo o conteúdo de seu sonho. Note que isso é um sonho. Com seus elementos selvagens e fantásticos, os sonhos dificilmente são declarações sobre a realidade, e muito menos a cosmologia. É notável que alguém interprete o conteúdo do sonho de um rei pagão registrado na Escritura como evidência de que a Bíblia ensina que a Terra é plana. Os versículos 19 a 27 contêm a interpretação de Daniel do sonho de Nabucodonosor, e os versículos 28 a 37 relatam o cumprimento do sonho. A chave para a interpretação do sonho é a identificação de Nabucodonosor com a árvore em seu sonho (versículos 20 a 22). Imediatamente, deve-se ver que, uma vez que a árvore representa Nabucodonosor, não é uma árvore literal (embora que, estando em um sonho, a árvore não seria literal de qualquer maneira). Além disso, o cumprimento literal do sonho não envolve uma árvore de forma alguma, reforçando a natureza não-literal da árvore. Mesmo que o sonho reflita corretamente a cosmologia de Nabucodonosor (assumindo que ele pensava que a Terra era plana), dificilmente constitui evidência de que a Bíblia ensina que a Terra é plana. Antes, a Bíblia meramente registra o pensamento de Nabucodonosor.

O mesmo tipo de raciocínio é usado para argumentar que Mateus 4:8 ensina uma Terra plana. Mateus 4:1-11 dá um relato da tentação de Jesus. A tentação começou no deserto, depois de Jesus ter jejuado por 40 dias e noites. Satanás primeiro tentou Jesus para transformar pedras em pão para satisfazer a fome de Jesus (Mateus 4:3). Presumivelmente, isso foi enquanto ainda estava no deserto. Em seguida, o diabo levou Jesus ao pináculo do Templo em Jerusalém e sugeriu que Jesus se lançasse para baixo (Mateus 4:5). Note que havia uma distância considerável entre o deserto e o Templo (pelo menos 80 quilômetros). Satanás instantânea e literalmente transportou Jesus do deserto para Jerusalém? Ou Satanás apresentou essa vista a Jesus enquanto ainda estava no deserto, talvez em uma visão? Mateus 4:8 registra a terceira tentação:

“Novamente o diabo o levou a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. ”

Aqueles que desejam defender uma Terra plana bíblica apontam que todos os reinos da Terra seriam visíveis de um monte alto somente se a Terra for plana. Entretanto, se esse monte de Mateus 4:8 com sua vista de toda a Terra é literal, então, onde ele está? Aqueles que seguem essa linha de raciocínio nunca determinaram a localização desse monte hipotético. Se esse monte é hipotético mesmo em uma Terra plana, então este versículo dificilmente constitui prova de que a Bíblia ensina que a Terra é plana. Mas este versículo realmente implica a visibilidade de toda a Terra a partir do pico desse monte?

Os outros dois Evangelhos sinóticos também registram a tentação de Cristo (Marcos 1:12-13, Lucas 4:1-13), embora o relato de Marcos não tenha detalhes. Os detalhes do relato de Lucas coincidem com muitos dos detalhes do registro de Mateus, mas há diferenças. Por exemplo, as segunda e terceira tentações estão trocadas. Isso não é uma dificuldade, se se permite que um ou ambos os relatos da tentação de Cristo sejam tratados tematicamente em vez de cronologicamente.  Aqueles que afirmam que a Bíblia ensina uma Terra plana se concentram no relato de Mateus, mas ignoram grandemente o Evangelho de Lucas nessa questão. Observe as diferenças entre Mateus 4:8 (acima) e Lucas 4:5:

“E o diabo o levou para o alto e mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. ”

Note que nenhum monte é mencionado, mas meramente que o diabo levou Jesus “para o alto” (traduções anteriores baseadas no Textus Receptus têm a palavra monte, mas a palavra grega para monte não aparece nos outros manuscritos, portanto sua inclusão no Textus Receptus provavelmente veio de uma adição de um copista que estava informado do relato paralelo de Mateus). Esse é um ponto relativamente pequeno, mas pode ter alguma relevância sobre se o monte que Mateus registrou era literalmente um monte alto do qual todos os reinos do mundo podiam ser vistos. Mais um detalhe no Evangelho de Lucas lança luz sobre esta questão. Lucas declarou que o diabo mostrou a Jesus todos os reinos do mundo “em um instante de tempo. ” A ênfase não é sobre onde Jesus estava, mas o que Jesus via. Isso não foi um grande panorama que levou algum tempo para assimilar. Pelo contrário, a glória de todos os impérios do mundo foi mostrada a Jesus simultaneamente. Isso soa mais como uma visão em vez de uma vista. Talvez não tenha havido um monte envolvido, mas, mais provavelmente, se refere a um lugar elevado e desolado, provavelmente no deserto, onde ocorreu a terceira tentação e sua visão concomitante. Não é de admirar que aqueles que promovem a Terra plana normalmente se concentram em Mateus 4:8 enquanto ignoram Lucas 4:5. Conforme mencionado acima, pode-se deduzir incorretamente de Mateus 4:8 que realmente existe um monte tão alto que toda a superfície da Terra é visível a partir dele, mas através da interpretação da Escritura nos termos da Escritura, pode-se ver que isso está incorreto.

O Firmamento é um Domo acima da Terra?

A cosmologia da Terra plana defende que um domo cobre uma Terra plana e circular, com sua borda apoiada na Terra do outro lado da parede de gelo da Antártida. As estrelas estão afixadas a esse domo, enquanto o Sol e a Lua estão acima da Terra, mas abaixo do domo. Alguns têm chamado isso de cosmologia do globo de neve, por causa de sua semelhança com um globo de neve. Supostamente, esta é a cosmologia que a Bíblia ensina. Ironicamente, os céticos fazem o mesmo argumento, mas a intenção deles é desacreditar a Bíblia. Poucos terraplanistas parecem estar cientes desse fato ou da ironia. Examinemos as Escrituras que supostamente apoiam esta cosmologia.

A chave nesta discussão é o firmamento. A palavra hebraica raqiya é traduzida como firmamento na versão King James. Ela aparece um total de 17 vezes no Antigo Testamento, com mais da metade das ocorrências (nove vezes) só no capítulo 1 de Gênesis. A palavra é um substantivo que deriva da raiz hebraica rq’, que significa esmagar. Um exemplo dessa ação é prensar ou pisar um metal em folhas finas. Essa é uma prática comum com o ouro, porque ele é muito maleável. Douração é o processo de aplicar a folha de ouro aos objetos, dando a impressão de que os objetos são de ouro puro. Por exemplo, a Arca da Aliança foi dourada com folha de ouro sobre madeira de acácia (Êxodo 25:10-11). A folha de ouro pode ser pisada ou esticada tão fina que luz intensa pode ser vista através dela. A partir do significado desta palavra, podemos deduzir que raqiya é algo que foi pisado ou estendido.

Infelizmente, algumas pessoas argumentam que, uma vez que essa é uma ação frequentemente feita a um metal, a coisa sendo estendida deve ter alguma propriedade física em comum com os metais. Os metais muitas vezes são sólidos, então, de acordo com esse raciocínio, a raqiya deve ser sólida. Esse é, certamente, o sentido da palavra arcaica inglesa “firmamento, ” que tem uma raiz em comum com a palavra “firme. ” No entanto, este é o significado pretendido? Nem todos os metais são sólidos; e o ouro, que está envolvido no melhor exemplo que ilustra a raiz hebraica a partir da qual o substantivo hebraico raqiya vem, definitivamente não é sólido. Portanto, é questionável se a raqiya é algo que é sólido. É mais provável que o significado pretendido de raqiya esteja relacionado ao processo de esmagamento, não uma propriedade física do objeto submetido ao processo. O processo tem o efeito de espalhar uma substância, ou possivelmente tornar a substância fina. É por isso que muitas traduções mais modernas da Bíblia traduzem raqiya como “expansão” em vez de “firmamento. ”

O primeiro uso da palavra raqiya na Bíblia provavelmente é útil para decifrar seu significado. Este é encontrado em Gênesis 1:6, o início do relato da criação do Segundo Dia. O relato da criação do Segundo Dia começa com a declaração de Deus de que haja uma raqiya para dividir as águas das águas. O versículo seguinte nos diz que Deus criou a raqiya e dividiu as águas que estavam abaixo da raqiya das águas que estavam acima da raqiya. Deste modo, a palavra raqiya aparece três vezes neste versículo. Antes de declarar o fim do Segundo Dia em Gênesis 1:8, Deus chamou a raqiya “céus. ” Logo, a palavra hebraica raqiya aparece cinco vezes no relato do Segundo Dia.

Há várias observações que podemos fazer a partir desta passagem. Em primeiro lugar, as águas que Deus dividiu foram as águas mencionadas em Gênesis 1:2. É claro que as águas que Deus separou abaixo devem se referir à água superficial (principalmente oceanos) na Terra. Mas quais são as águas acima da raqiya? A forma como respondemos esta pergunta vai depender do que entendemos que é a raqiya. Note que Deus equipara a raqiya com o céu. A palavra hebraica shamayim é traduzida como “céus” na maioria das mais de 400 vezes que ocorre no Antigo Testamento, como está aqui.

Interpretando a Escritura em termos de Escritura, encontramos o reforço da equiparação da raqiya com o céu. Pelo menos onze versículos do Antigo Testamento falam de Deus estendendo os céus (Jó 9:8; Salmos 104:2; Isaías 40:22; 42:5; 44:24; 45:12; 48:13; 51:13 Jeremias 10:12; 51:15; Zacarias 12:1). No Segundo Dia, Deus criou a raqiya, algo que é espalhado ou estendido. Além disso, Deus chamou a raqiya “céus. ” O entendimento dos céus provavelmente se refere à quando Deus criou a raqiya.

O céu geralmente é entendido como estando acima de nós. Dependendo do contexto, a palavra pode se referir ao que está imediatamente acima de nós, onde pássaros voando, nuvens e chuva estão. Também pode se referir à região dos corpos astronômicos. Finalmente, muitas vezes se refere à morada de Deus. “Céu” tem todos esses significados, tanto no uso moderno quanto na Bíblia. Raqiya se refere a todos esses significados, ou apenas a alguns desses significados?

Os outros aparecimentos da palavra raqiya no relato da criação em Gênesis 1 podem ajudar a responder a esta pergunta. O próximo uso da palavra raqiya está no relato do Quarto Dia da criação (Gênesis 1:14-19), onde aparece três vezes. Cada vez ela aparece em combinação com a palavra hebraica shamayim. A melhor forma de expressar esse relacionamento em inglês é com a frase preposicional, “expansão do céu. ” Essa construção enfatiza, para que não haja qualquer dúvida, que a coisa mencionada no relato do Quarto Dia é o que Deus fez no Segundo Dia. Em Gênesis 1:14, Deus ordenou que houvesse luminares no firmamento do céu. Gênesis 1:15 expande a ordem de que sejam luminares no firmamento do céu. Gênesis 1:17-18 declara que Deus criou os luminares e os colocou no firmamento do céu. Está claro aqui que os luminares são os corpos celestes, os luminares maior e menor, e as estrelas também (Gênesis 1:16). Portanto, o firmamento do céu (a raqiya) é onde Deus colocou os corpos celestes ou astronômicos. Hoje chamaríamos isso de espaço sideral, ou simplesmente espaço.

A propósito, alguns terraplanistas parecem fazer uma distinção aqui que é injustificada. Eles argumentam que as estrelas estão fixadas em um domo acima da Terra (a raqiya), mas defendem que o Sol e a Lua (os luminares maior e menor) estão abaixo do domo, entretanto acima da Terra (isso está em conformidade com a maioria das cosmologias da Terra plana hoje). Isso exige distinguir artificialmente as estrelas dos luminares maior e menor em Gênesis 1:17, de modo que apenas os luminares maior e menor são colocados (isto é, dentro) da raqiya em Gênesis 1:17, enquanto as estrelas são efetivamente colocadas na superfície da raqiya. Terraplanistas que adotam essa distinção sugerem que a frase “no firmamento do céu” de Gênesis 1:17 (e possivelmente Gênesis 1:14-15 também) deve ser entendida como “dentro do firmamento do céu. ” Isto é, Deus colocou o Sol e a Lua dentro do firmamento, tanto quanto se poderia colocar um objeto dentro de um recipiente, tal como uma caixa.  A caixa não indica a localização do objeto, mas somente contém o objeto. Entretanto, o texto hebraico (e até mesmo o texto em inglês) não permite isso. O pronome plural masculino do versículo 17 remete ao Sol, à Lua e às estrelas coletivamente, e o verso não distingue quanto à sua colocação. A compreensão mais natural do relato da criação do Quarto Dia é que todos os corpos celestes estão localizados na raqiya. Novamente, hoje chamamos isso de espaço.

Até que ponto a Terra faz a raqiya se estender? O último uso da palavra em Gênesis 1, no relato da criação do Quinto Dia, é útil para responder a esta pergunta. Ao descrever a criação dos seres voadores, Gênesis 1:20 usa a frase “expansão dos céus” para descrever onde eles voam. Embora esta frase seja a mesma de seus três aparecimentos no relato do Quarto Dia, a formulação antes desta frase é diferente.  O hebraico literalmente afirma que os pássaros foram voar “sobre a face da expansão dos céus. ” Isso poderia significar que os pássaros voam neste lado do firmamento do céu ou no lado próximo do firmamento do céu. Se o primeiro, então, a raqiya pode não se estender até onde os pássaros voam. Se o último, pode incluir onde os pássaros voam. De qualquer maneira, a raqiya parece incluir o que hoje chamaríamos de espaço sideral e muito, se não tudo, da atmosfera terrestre. Tenha em mente que a distinção entre a atmosfera da Terra e o espaço sideral é de origem moderna. Além disso, mesmo na linguagem de hoje, não há uma delineação clara sobre onde a atmosfera termina e o espaço começa. Nem o entendimento moderno nem o antigo está necessariamente certo ou errado; eles são apenas diferentes.

O próximo uso da palavra raqiya (a décima vez no Antigo Testamento) não ocorre até Salmos 19:1. O significado ali é condizente com o que concluí de Gênesis 1. O paralelismo comparativo das duas afirmações do Salmo 19: 1 indica que raqiya e shamayim são a mesma coisa, algo que Gênesis 1:8 já equiparou. Além disso, o Salmo 19:4-6 descreve o movimento do Sol nos céus (equivalente à raqiya), reforçando ainda mais o entendimento captado de Gênesis 1.

E sobre as sete vezes restantes que a palavra hebraica raqiya aparece no Antigo Testamento fora de Gênesis 1 e Salmo 19? A palavra aparece mais uma vez nos Salmos, no Salmo 150:1, que se lê, na versão King James:


“Louvai ao Senhor. Louvai a Deus no seu santuário: louvai-o no firmamento do seu poder. ”

Como a ordem das palavras é diferente em diferentes idiomas, algumas passagens, como por exemplo esta, podem ser difíceis de traduzir. Os tradutores da King James tentaram seguir a ordem das palavras em hebraico neste versículo. Consequentemente, as duas palavras finais, “seu poder, ” referem-se claramente a Deus, embora isso seja um pouco estranho em inglês. A Versão Padrão Inglesa (English Standard Version) alterou ligeiramente a ordem das palavras, de modo que a frase final se lê, “seus poderosos céus. ” Ou seja, a palavra "poderoso", sinônimo de poder, modifica a raqiya, em vez de ser descritivo de Deus (note também que a ESV traduziu raqiya como "céus" aqui, talvez com base em Deus chamando a raqiya "céus" em Gênesis 1:8). Esta tradução muda o significado, mas essa diferença de significado é consequente? Deus criou a expansão, portanto, se a expansão é poderosa, Deus é ainda mais poderoso. No entanto, a versão King James provavelmente é a tradução correta, ainda que a ordem das palavras seja estranha. Na Nova Tradução Inglesa, a segunda parte deste versículo diz: "Louvai-o no céu, o qual testifica da sua força!" Esta formulação, embora diferente da King James, expressa mais claramente o significado pretendido pela versão King James. Além disso, esta interpretação é condizente com o significado muito claro do Salmo 19:1.

A palavra raqiya aparece uma vez no livro de Daniel. O contexto é estabelecido em Daniel 12:1-2 conforme o eschaton, quando a ressurreição dos mortos ocorrerá, uns para a vida eterna e outros para o castigo eterno. Na versão King James, Daniel 12:3 diz:

"Os que forem sábios, resplandecerão como o brilho do firmamento; e os que converterem a muitos para a justiça como as estrelas para sempre e eternamente."

Observe o paralelismo contido nestes dois símiles separados por um ponto e vírgula e a conjunção "e". Claramente, os "sábios" do primeiro símile e "os que convertem a muitos para a justiça" do segundo símile são as mesmas pessoas, reforçando pelo menos uma equivalência aproximada entre as coisas a que eles são comparados.  O primeiro símile diz que o sábio brilhará como o brilho da raqiya. No segundo símile, as palavras "brilhar" e "brilho" são omitidas; mas essas palavras estão implícitas, o que reforça ainda mais o paralelismo. De fato, as pessoas que convertem muitos para a justiça são comparadas às estrelas, que brilham intensamente. Além disso, a partir do relato da criação do Quarto Dia de Gênesis 1, sabemos que as estrelas estão localizadas na raqiya. Portanto, a raqiya de Daniel 12:3 refere-se claramente à mesma coisa encontrada em Gênesis 1 e Salmo 19:1.

Os últimos cinco aparecimentos da palavra "raqiya" estão em Ezequiel, quatro vezes no primeiro capítulo e uma vez no capítulo 10. Ezequiel 1:1-3 define a cena: Ezequiel estava com outros exilados junto ao canal Quebar (ou rio) quando os céus se abriram e ele contemplou uma visão. A indicação é que os companheiros de Ezequiel não enxergaram a visão, mas ele só. Ou Deus transportou Ezequiel para o céu, onde ele literalmente viu as coisas de sua visão ou Deus as revelou para ele, tanto como o que alguém pode experimentar em um sonho. Não sabemos ao certo, mas, dada a descrição, o último parece mais provável. Além disso, a visão de Ezequiel 11 claramente é do último tipo (Ezequiel 11:1,24).

As primeiras coisas que Ezequiel viu foram quatro criaturas viventes que se assemelhavam aos homens, mas cada uma tinha quatro faces. Cada criatura tinha pés e asas e uma roda. As criaturas se moviam em conjunto, e conforme se moviam, as rodas iam com elas. Ezequiel descreveu as criaturas como brilhantes e coloridas (Ezequiel 1:7, 13, 16). Ao longo da descrição de Ezequiel de sua visão, ele repetidamente usou as palavras "como" e "semelhança". Claramente, Ezequiel teve dificuldade em descrever o indescritível, então ele expressou o que viu em termos de coisas familiares para ele. Como tal, é inadequado levar essas comparações literalmente. Em Ezequiel 1:22, o profeta registrou que acima das cabeças das quatro criaturas havia alguma coisa semelhante a uma raqiya. Novamente, observe o uso do símile: Ezequiel não disse que era uma raqiya, mas que era como uma raqiya. Por outro lado, o que Deus fez no Segundo Dia não era como uma raqiya; era uma raqiya. Dada a dificuldade que Ezequiel teve ao descrever o que viu, não podemos ter certeza do que era exatamente essa expansão. Uma possibilidade é que era meramente um espaço, ou abertura, entre as quatro criaturas e o que estava acima. O que estava acima? Ezequiel 1:23 descreve as quatro asas da criatura debaixo da expansão. Ezequiel 1:25 registra que uma voz veio de cima da expansão, e Ezequiel 1:26 afirma que havia algo como um trono acima da expansão. A partir de Ezequiel 1:28, sabemos que este é o trono de Deus. Portanto, essa abertura poderia ter sido entre as criaturas e o trono de Deus.

Entretanto, existe outra possibilidade. Ezequiel 1:22 compara a aparência dessa expansão a um "cristal". A King James usa a frase "cristal terrível". Infelizmente, a palavra "terrível" mudou de significado nos últimos quatro séculos. Seu significado original é melhor traduzido hoje como "impressionante" ou "imponente". De fato, várias traduções modernas do inglês usam a palavra "impressionante". (Curiosamente, a Bíblia de Genebra, que é anterior à versão King James, usa a palavra "maravilhoso", que ainda é interpretada bem hoje). O que significa ser um cristal? É preciso ter cuidado, porque as definições modernas e antigas são diferentes. No mundo antigo, um cristal era qualquer substância que fosse sólida e transparente. Exemplos incluem vidro, quartzo, sal-gema, diamante e outras pedras preciosas que transmitem luz. Com exceção do vidro, esses cristais tinham facetas de ocorrência natural. No entanto, o vidro, particularmente o vidro de chumbo, pode ser cortado para produzir facetas.

Hoje, definimos um cristal como uma substância tendo uma matriz ordenada de átomos ou moléculas. Essa matriz ordenada é responsável pela clivagem natural ao longo das facetas dos cristais (seguindo a definição antiga). Quase todas as substâncias sólidas têm uma estrutura de cristal, de modo que a maioria dos cristais (no sentido moderno) não são transparentes. É importante que entendamos a palavra no sentido antigo, não no sentido moderno. A palavra traduzida aqui como "cristal" em outra parte no Antigo Testamento é traduzida como "gelo". No sentido antigo, o gelo teria sido considerado um cristal, porque era duro e transparente. No sentido moderno, o gelo é também um cristal, porque possui uma estrutura cristalina hexagonal. Quer no sentido moderno ou no sentido antigo, devemos ver essa expansão que Ezequiel descreveu como um cristal literal? Provavelmente não. Ezequiel comparou o que viu a uma expansão, mas, além disso, comparou sua aparência a um cristal, sendo a ênfase na luz que emitia. Isto é, brilhava, incandescia, reluzia ou tinha uma coloração como um cristal. Podemos descrever o que Ezequiel viu como uma aura.

Uma visão posterior começa em Ezequiel 8, com Ezequiel 10 sendo uma parte dessa visão. Ezequiel 10:1 menciona uma raqiya acima das cabeças dos querubins com o que parecia ser um trono acima. Que isso soa similar à Ezequiel 1, soa. A descrição dos querubins em Ezequiel 10:9-14 é semelhante à descrição das quatro criaturas viventes em Ezequiel 1:5-21. De fato, Ezequiel declara duas vezes que esses querubins eram os mesmos que as quatro criaturas viventes que ele vê em sua visão junto ao canal Quebar (Ezequiel 10:15, 20-22). Para reiterar, as raqiyas dos capítulos 1 e 10 de Ezequiel não são as raqiyas encontradas em outras partes no Antigo Testamento. É um erro igualar displicentemente esses dois significados muito diferentes.

Ambos, céticos e terraplanistas erram nesse ponto. Desatento dessa distinção, é muito fácil pensar que aquilo que Ezequiel descreveu como sendo semelhante a uma raqiya é a mesma raqiya que Deus criou no Segundo Dia e, consequentemente, obtém propriedades da última a julgar pela precedente. Com as muitas semelhanças entre as visões de Ezequiel brevemente discutidas acima e a descrição do apóstolo João de parte de sua visão em Apocalipse 4:6-8, o problema é agravado pela captação de propriedades da raqiya do Segundo Dia da qual o livro de Apocalipse nos diz. Por exemplo, Apocalipse 4:6 afirma que, diante do trono de Deus, havia um mar de vidro, como cristal. Supondo que este mar de vidro está abaixo do trono de Deus, e observando que Ezequiel mencionou o trono de Deus acima de uma expansão (Ezequiel 1:26; 10:1), pode-se concluir que a expansão de Ezequiel e o mar de vidro de João são a mesma coisa, vista de lados opostos. Mas, se alguém comparar cada menção da raqiya no Antigo Testamento, deduz que o mar de vidro de João é a raqiya que Deus criou no Segundo Dia. Para muitos que aderem ao globo de neve, isso está perfeitamente alinhado com Isaías 66:1, que diz que o céu é o trono de Deus e a Terra é o escabelo de seus pés. Ou seja, no modelo do globo de neve, Deus senta-se logo acima do domo sobre a Terra plana.

Para aqueles que insistem em levar tudo na Bíblia como estupidamente literal, isso fica repleto de problemas. Por exemplo, Isaías 66:1 declara que o céu é o trono de Deus, mas Ezequiel e João deixaram claro que o trono de Deus está no céu. Os dois não podem ser literalmente verdadeiros. Além disso, Deus é espírito (João 4:24) e, portanto, não possui um corpo físico. Os muitos exemplos de antropomorfismos na Bíblia, sugerindo coisas como Deus tendo mãos (Salmos 8:3, Isaías 66:2) ou olhos (Provérbios 15:3) claramente não são literais. Há também uma inconsistência no argumento da Terra plana aqui. Terraplanistas acreditam que o firmamento é um domo transparente sobre a Terra e, portanto, é curvo. Por outro lado, nenhum corpo de água é curvo, mas pelo contrário todos os mares têm superfícies planas. Mas João descreveu um mar de vidro que, por qualquer outro uso, deve ser plano, então por que esse é curvo?

Os terraplanistas usam um versículo mais que não contém a palavra raqiya, mas uma palavra relacionada. É Jó 37:18, onde Eliú perguntou a Jó:

"Estendeste com ele o céu, que é forte, e como um visor derretido?"

Há várias razões pelas quais é preciso ter cuidado na captação do significado deste versículo. Primeiro, este versículo está dentro de uma unidade textual (Jó 37:14-18), que usa poeticamente os fenômenos climáticos para ilustrar o poder esmagador e a sabedoria de Deus —­­portanto, ensinar cosmologia não é o ponto. Em segundo lugar, essas são as palavras de Eliú, não de Deus. Embora a Bíblia seja inspirada, nem tudo registrado nela é necessariamente verdadeiro. Esse é um registro verídico do que Eliú disse, porque Deus considerou conveniente preservar o discurso de Eliú, mas isso não significa que Eliú falasse infalivelmente. Então, se as palavras de Eliú contêm informações cosmológicas, elas apenas refletem seu entendimento e não necessariamente a realidade. Em terceiro lugar, o livro de Jó contém linguagem e expressões idiomáticas que são exclusivas dele, e muitas são difíceis de traduzir. Além do mais, Jó, sendo poesia hebraica antiga, evidencia muitos exemplos de imagens e linguagem fenomenológica. Jó 37:18 contém um caso de imagens particularmente desafiador.

Observe que a palavra "céu" aparece neste versículo em vez de "firmamento". Isso acontece porque a palavra hebraica raqiya não está no texto, mas sim shachaqim (o plural de shachaq) é usada. O que esta palavra hebraica significa? Ela aparece em suas várias formas 21 vezes no Antigo Testamento. Aparece cinco vezes no livro de Jó, como o faz em Jó 37:18.  Nas outras quatro ocorrências, a versão King James a traduz como "nuvens" (Jó 35:5; 36:28; 37:21; 38:37). Note que um destes outros quatro versículos (Jó 37:21) está dentro do contexto literário imediato do discurso de Eliú. Além disso, dentro desse mesmo contexto, Eliú usa duas outras palavras hebraicas para descrever as nuvens (anan em 37:15 e ab em 37:16). Portanto, shachaqim em Jó 37:18 provavelmente deveria ser traduzida como "nuvens" também. Desta maneira, Eliú aqui nem sequer aborda a cosmologia; se alguma coisa, ele está comentando sobre fenômenos climáticos.

E o termo "visor"? Este é um termo arcaico para espelho, e as traduções mais modernas o traduzem como tal. A palavra "derretido" é um pouco confusa, porque hoje podemos pensar disso como estando em um estado quente e líquido. Nos tempos antigos, espelhos eram feitos de metal polido, normalmente bronze. Os espelhos eram fabricados por fundição, então, durante a fundição estavam derretidos, mas, quando em uso, estavam solidificados. A terminologia aqui provavelmente se refere a como o espelho foi fabricado, então hoje seria melhor traduzido como um "espelho fundido" (como em muitas traduções modernas da Bíblia).

E quanto à frase "que é forte"? A versão King James modificou a palavra céu (ou, como vimos, a palavra que deveria ser traduzida como "nuvens"). Entretanto, no texto hebraico, a frase subjacente à tradução ("que é forte") modifica a palavra traduzida "visor/espelho". Como tal, Eliú não está dizendo que o céu (ou nuvens) é forte, mas sim está comparando-o em aparência a um espelho forte (firme ou rígido). Isso faz sentido, pois até hoje nos referimos a condições severamente nubladas como um "céu de chumbo". Claramente, Eliú não está falando sobre um domo sólido sobre a Terra.

Discussão

A partir desta breve avaliação de passagens relevantes do Antigo Testamento, não há evidências claras de que a raqiya é um domo sólido sobre a Terra. Em vez disso, a raqiya provavelmente é o que hoje chamamos de espaço e grande parte da atmosfera terrestre. Além disso, passagens bíblicas que supostamente indicam que a Terra é plana não fazem tal coisa. Sendo assim, por que terraplanistas e céticos pensam que a raqiya é um domo rígido que envolve uma Terra plana? O desenvolvimento dessa falsa ideia tem uma longa história, que só posso resumir brevemente aqui.

A Septuaginta foi uma tradução do Velho Testamento do século III a.C. do hebraico para o grego. A necessidade dessa tradução foi que muitos judeus da época já não podiam falar ou ler em hebraico. Isso foi particularmente verdadeiro para os judeus da diáspora, dos quais muitos viviam em Alexandria, no Egito, onde a tradução da Septuaginta foi feita. Alexandria foi uma grande cidade grega e era um centro de aprendizado e cultura grega. Consequentemente, o povo de Alexandria, incluindo os judeus, foram fortemente helenizados; e, portanto, os judeus de Alexandria estavam familiarizados com a ciência então atual.

A cosmologia grega da época defendia uma Terra esférica concêntrica dentro de uma esfera sólida e transparente muito maior na qual as estrelas estavam afixadas (a esfera celeste). O Sol, a Lua e cinco planetas visíveis a olho nu moviam-se em esferas menores dentro da esfera celeste. A palavra grega steréoma, referente a algo rígido, foi usada para descrever a esfera celeste. Uma vez que os judeus helenizados da época estavam cientes dessa cosmologia, não é por acaso que a Septuaginta traduziu a raqiya como steréoma, aparentemente na tentativa de acomodar a cosmologia de seus dias. Os primeiros escritos judaicos conhecidos que abordam a cosmologia são do período medieval e refletem a cosmologia medieval descrita acima. Por isso, não temos conhecimento em que cosmologia específica os hebreus antigos acreditavam. Todavia, a palavra grega que os tradutores da Septuaginta escolheram é um forte indício sobre o que, pelo menos, os judeus helenizados do mundo antigo pensavam. Provavelmente, era uma Terra esférica centrada na esfera celeste. Isso é muito diferente de um domo arqueado sobre uma Terra plana que os terraplanistas promovem.

Vários séculos após a tradução da Septuaginta, Jerônimo traduziu o Antigo Testamento e o Novo Testamento para o latim. Jerônimo selecionou a palavra latina firmamentum para traduzir raqiya, uma palavra análoga à palavra grega steréoma. O modelo rígido e transparente da esfera celestial dos antigos gregos ainda era a cosmologia dominante nos dias de Jerônimo. Portanto, ele acomodou essa cosmologia e endossou a interpretação da Septuaginta sobre o assunto. Muito mais tarde, os tradutores das primeiras versões inglesas da Bíblia somente transliteraram a escolha de Jerônimo para o inglês como "firmamento". Isso tem causado problemas desde então, porque as pessoas reconhecem a palavra "firme" dentro dessa palavra e presumem que a raqiya deve ser algo rígido. Entretanto, como já vimos, em vez de se referir a alguma coisa necessariamente rígida, a palavra raqiya provavelmente se refere a algo que foi estendido. É por isso que muitas traduções inglesas modernas traduzem a raqiya como "expansão". Esta é uma boa tradução, porque chega ao coração do que é o provável significado pretendido de raqiya. Algumas traduções modernas traduzem raqiya como "céu". Esta também é uma boa tradução, porque o céu que vemos acima de nós inclui o provável significado da raqiya, conforme discutido anteriormente.

É uma crença comum hoje que a cosmologia apresentada na Bíblia é a de um domo rígido sobre a Terra sustentada por pilares. Claramente, isso está em desacordo com os fatos. Primeiro, a Bíblia não ensina explicitamente nenhuma cosmologia. Em vez disso, pode-se juntar certas passagens para resolver qual possível cosmologia pode estar lá, mas é preciso ter cuidado para não ler essas interpretações de passagens provenientes de fontes externas.

Nossa abordagem deve ser a exegese, extraindo da Escritura qual é o provável significado, ao invés de eisegese, interpretando um significado na Escritura. Como veremos, uma abordagem eisegética foi o que levou à crença equivocada de que a Bíblia ensina um domo sólido sobre a Terra. Reconheço que não sou imune a essa dificuldade, mas, pelo menos, admitir a tentação de interpretar a Escritura através da lente de fatores externos torna possível estar em guarda. Deixe-me enfatizar novamente que a Bíblia não endossa explicitamente nenhuma cosmologia. Isso é bom, e é condizente com a sabedoria de Deus. Se Deus tivesse endossado nas Escrituras uma cosmologia antiga, aqueles que acreditavam em alguma outra cosmologia antiga teriam descartado a Bíblia com base em que a cosmologia da Bíblia estava errada. Certamente, o homem moderno faria esse argumento, porque as cosmologias modernas diferem de todas as cosmologias antigas. Mas e se Deus tivesse endossado a cosmologia moderna? Então, as pessoas até tempos relativamente recentes teriam descartado a Bíblia, porque, em suas mentes, ela ensinava a cosmologia errada.

Em segundo lugar, embora não seja uma fonte inspirada, Josefo frequentemente reflete o pensamento dos judeus no primeiro século d.C. Josefo viveu em Israel, não em Alexandria, mas seus escritos mostram evidências da helenização. Uma vez que sua seita foi a única a sobreviver à perseguição e destruição que vieram em 70 d.C., sua obra passou a ser reconhecida como representando os judeus de seu tempo. Contudo, Josefo distorceu as ideias das outras seitas e apresentou sua própria seita com o melhor aspecto possível. Esse tipo de distorção se estendeu até a sua apresentação das crenças religiosas das outras seitas. Deste modo, devemos ter muito cuidado ao usar Josefo. Com essa ressalva, o que os escritos de Josefo revelam sobre a cosmologia entre pelo menos alguns dos judeus antigos? Seu relato da criação do Segundo Dia é condizente com a cosmologia grega de seu tempo, mas não com a cosmologia do domo arqueado.

Em terceiro lugar, a cosmologia do Ocidente ao longo do período medieval foi a dos gregos antigos, não um domo arqueado sobre uma Terra plana. Foi dentro dessa cosmologia que o astrônomo do segundo século d.C., Cláudio Ptolomeu, desenvolveu seu modelo para explicar os movimentos dos planetas. O modelo ptolomaico foi derrubado (juntamente com os outros elementos da cosmologia grega antiga) há apenas quatro séculos a favor de cosmologias mais modernas, como a teoria heliocêntrica.

Se o domo arqueado não é a cosmologia da Bíblia, como tanta gente chegou a pensar que era? Essa ideia surgiu como resultado de três acontecimentos no século XIX. Primeiramente, a arqueologia moderna começou de fato no século XIX. Interpretações de escavações iniciais no Oriente Próximo indicaram uma cosmologia de domo arqueado, a partir da qual os arqueólogos e historiadores concluíram erroneamente que esta era a antiga cosmologia do Oriente Próximo.

Segundo, a hipótese documentária propôs que o Pentateuco foi escrito muito depois do que o tempo de Moisés (e muitos de seus proponentes duvidam se Moisés existiu mesmo). De acordo com a hipótese documentária, quatro documentos diferentes surgiram na primeira metade do primeiro milênio a.C., e essas fontes foram redatadas muito mais tarde, durante o período intertestamentário. Supostamente, os judeus pegaram grande parte de sua cosmologia, cosmogonia e história inicial a partir das antigas culturas do Oriente Próximo, e estas estão refletidas nos relatos da criação e dilúvio de Gênesis. Por isso, tornou-se moda interpretar as passagens bíblicas em termos da suposta cosmologia dominante do domo arqueado.

Terceiro, a tese do conflito afirmou que o cristianismo impediu o desenvolvimento do pensamento durante toda a Idade Média, até que o homem, alegadamente, foi liberto das restrições da Bíblia durante a Renascença, em que a razão do homem permitiu uma renovação no aprendizado. Parte do caso criado contra o cristianismo como parte da tese do conflito foi que a igreja e a Bíblia ensinaram que a Terra era plana e estava rodeada por um domo arqueado. Conforme demonstrado em outra parte, a igreja nunca ensinou que a Terra é plana. Uma mentira tão patente deve pôr em dúvidas a alegação sobre o domo arqueado sendo a cosmologia bíblica também. A gravura de Flammarion é uma representação muito famosa do domo arqueado sobre a Terra plana. A maioria das pessoas pensam que essa é uma obra de arte medieval, mas data da década de 1880. É dificultoso encontrar quaisquer representações medievais da suposta cosmologia do domo arqueado/Terra plana da Bíblia porque isso não era acreditado na Idade Média. A influência da gravura de Flammarion, tal como utilizada pelos promotores da tese do conflito, não pode ser superestimada. Essa representação parece ter feito mais do que qualquer outra coisa promover a falsa noção de que a cosmologia medieval era um domo arqueado sobre uma Terra plana.

O domo arqueado nem sequer foi a cosmologia dominante no antigo Oriente Próximo. Escavações e estudos posteriores revelaram uma infinidade de cosmologias antigas do Oriente Próximo. Se alguém deseja interpretar a cosmologia da Bíblia em termos da cosmologia do antigo Oriente Próximo, então primeiro deve decidir qual cosmologia usar. Infelizmente, muitos estudiosos da Bíblia hoje têm sido enganados pela tese do conflito ao pensar que a cosmologia da Bíblia é a de um domo arqueado sobre uma Terra plana, o que levou a muitas representações do século XX e XXI de uma Terra plana com um domo arqueado acima, apoiada por pilares. Entretanto, tais representações começaram a aparecer no século XIX, após o dano causado pela tese do conflito. Essa linha de pensamento tem ganhado muita força nos últimos anos. Por exemplo, a Nova Versão Internacional da Bíblia, lançada pela primeira vez em 1984, traduziu originalmente a raqiya como "céu", mas a edição atualizada publicada em 2011 a traduziu como "abóbada". Novamente, essa falsa compreensão da cosmologia bíblica por alguns estudiosos da Bíblia (estudiosos que, de modo geral, têm sido enganados pela tese do conflito) é relativamente recente.

Para agravar o problema, os cristãos que endossam a Terra plana usam descrições de teólogos contemporâneos que retratam erroneamente a cosmologia bíblica como uma Terra plana sob um domo arqueado como evidência do que a Bíblia ensina. Portanto, são duas vezes vítimas da tese do conflito, uma em abraçar uma Terra plana, e mais uma vez em aceitar a falsa cosmologia do domo arqueado. De novo, esse conceito de cosmologia bíblica não veio de fontes antigas, mas, pelo contrário, surgiu no final do século XIX como uma tentativa de desacreditar a Bíblia. Aqueles que apoiam a Terra plana acreditando que isso é o que a Bíblia ensina caíram em uma armadilha. Ironicamente, embora aparentemente motivados para defender a Bíblia, têm sido enganados ao usar os mesmos falsos argumentos que os céticos usam.

Conclusão

Aqui, eu examinei as passagens bíblicas que terraplanistas geralmente usam para alegar que a Bíblia ensina que a Terra é plana. Há outras passagens que terraplanistas ocasionalmente usam. Contudo, a frequência de uso dessas passagens é muito menor do que os versículos que discuti aqui. Além disso, esses versos restantes geralmente requerem a suposição de que a Terra é plana, para começar. Uma vez que essas passagens mais importantes, frequentemente citadas são descartadas como ensinando uma Terra plana, os poucos versículos restantes provavelmente não importam. Dependendo da reação a este artigo, posso utilizar essas outras passagens mais tarde. Claramente, a Bíblia não ensina que a Terra é plana. Foram os céticos da Bíblia que introduziram essa falsa alegação no século XIX. É uma vergonha que crentes professos da Bíblia recentemente tenham abraçado esse falso argumento e passado a promover a Terra plana. Quando combinada com os muitos problemas científicos e observacionais, a teoria da Terra plana é desacreditada.

O modelo de Terra do globo de neve exige que a Terra fique imóvel. Por isso, terraplanistas são geocentristas, e muitos deles também apoiam sua posição com passagens bíblicas que, supostamente, ensinam que a Terra é estacionária. Antes do recente aumento do interesse na Terra plana entre os cristãos conservadores, já houve um movimento geocêntrico usando muitos dos mesmos argumentos que terraplanistas usam agora. Embora geocentristas clássicos e terraplanistas concordem com a questão de se a Terra se move, discordam fortemente sobre o formato da Terra. Anteriormente escrevi sobre o geocentrismo e discuti algumas das passagens bíblicas que supostamente ensinam o geocentrismo. Talvez em um futuro artigo eu reveja o assunto do geocentrismo e as supostas passagens bíblicas que o apoiam.


Traduzido por Esther Kochav do original em inglês do AnswersinGenesis: Does the Bible Teach that the Earth is Flat?
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